CONTO DE ROSA KAPILA - PRIMEIRO DA SAGA Taciana encontra Fátima, a Fiandeira Numa cidade do mais longínquo Ocidente vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero Fiandeiro. Um dia seu pai lhe disse: — Filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do Mediterrâneo. Talvez você encontre por lá um jovem atraente, de boa posição, com quem possa e então se casar.Taciana estava nessa mesma viagem e logo fez amizade com Fátima. As duas riam, cochichavam e, parecia que nossa heroína estava pela primeira vez feliz com uma amiga. Ela sempre xingava suas colegas de mercenárias e mau caráter. Fátima era a pessoa mais tranquila e bondosa do mundo. O pai ficava meio desconfiado com tanto assunto mas deixava as duas à vontade. Iniciaram assim sua viagem, indo de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, Fátima sonhando com o homem que poderia vir a ser seu marido.Taciana sonhava também mas não revelava seus sonhos, sempre foi uma criatura muito desconfiada. Um dia, quando se dirigiam a Creta, armou-se uma tempestade e o barco naufragou. Fátima, semiconsciente, foi arrastada pelas ondas até uma praia perto de Alexandria. Foi ajudada por Taciana que demonstrava uma força de hércules, queria de qualquer jeito salvar a amiga. As duas se salvaram mas o pai de Fátima estava morto, e ela ficou inteiramente desamparada.Taciana disse que não, elas duas lutariam juntas e procurariam um jeito de viver. O único conforto de Fátima era Taciana que lhes contava histórias estrambólicas mas que no final dava certo. Até morto enterrado Taciana viu ressuscitar. “Viu mesmo?” “Vi muitos”. Fátima recordava-se apenas de longe de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar a tinham deixado completamente exausta e aturdida. O aturdimento de Taciana passou logo, se sentia pronta para qualquer guerra. Enquanto as duas jovens vagavam pela praia, uma família de tecelões deu de encontro com elas. Embora fossem pobres, levaram as duas para sua humilde casa e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo Fátima e Taciana iniciaram nova vida e, em um ou dois anos, voltaram a ser felizes, reconciliadas com a sorte. Entretanto um dia, quando as duas moças estavam na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcaram e levaram-nas junto com outros cativos. Apesar de Taciana se lamentar com veemência de seu destino e do de Fátima eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-nas para Istambul e venderam as duas como escravas. Pela segunda vez o mundo de Fátima desabava como a casinha de palha dos três porquinhos.Taciana ainda mantinha uma certa altivez, afinal de contas em sua profissão apanhara muito de homem. Mas quis a sorte que no mercado houvesse poucos compradores na ocasião. Um deles era um homem que procurava escravas para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Ao perceber o ar desolado e o abatimento das meninas decidiu comprá-las, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador. Então Taciana e Fátima foram levadas pelo segundo comprador para casa com a intenção de fazer delas criadas para sua esposa. Teve uma surpresa ao chegar em casa. Perdeu todo o seu dinheiro quando seu carregamento fora capturado por piratas. Não poderia enfrentar as despesas que lhes davam os empregados, e assim ele, Fátima, Taciana e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros. Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatada, trabalhou tanto e tão bem que ele lhe deu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de confiança. Assim ela chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão. Com Taciana não aconteceu o mesmo, pois, tinhosa e marrenta queria dinheiro para beber vinho e sair sem ter horas pra voltar. Um dia o patrão chamou Fátima e disse: — Fátima, quero que vá a Java, como minha representante, com um carregamento de mastros; procure vendê-los com lucro.Fátima respondeu que só iria com Taciana, pois devia sua vida a ela. “Pois que seja, vão as duas.” As jovens partiram Mas quando o barco estava na altura da costa chinesa um tufão o fez naufragar. Mais uma vez Fátima e Taciana se viram jogadas como náufragas em uma praia de um país desconhecido. Fátima gritava de dor porque sentia que nada em sua vida acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem alguma coisa vinha e destruia suas esperanças.Taciana disse: “isso é pinto diante do que já passei.” “Para mim sai tudo errado” chora Fátima. “Comigo sai muita coisa errada mas também tem hora que a sorte me sorri.”As duas saíram andando pela praia em silêncio. Acontece que na China ninguém tinha ouvido falar de Fátima ou de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia. Para ter certeza de que a estrangeira ao chegar não passaria despercebida, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte. Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima e Taciana chegaram a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com elas através de um intérprete e explicaram-lhe que deviam ir à presença do imperador. — Senhoras — disse o imperador quando as duas moças foram levadas até ele — sabem fabricar uma tenda? — Acho que sim, Majestade — respondeu Fátima e você Taciana, sabe? “Não, eu não sei fazer tendas.” Fátima Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima colheu linho e fez as cordas. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não o tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando sua experiência com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando estas estavam prontas ela puxou de novo pela memória, procurando lembrar-se de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída. Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela escolheu morar na China, onde se casou com um belo príncipe e, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.Taciana chorou muito quando se despediu da amiga. Aquele lugar não servia pra ela. Era preferível que Fátima, sua fiel escudeira fosse feliz. No outro dia Taciana embarcou em um navio e seguiu seu destino. Através dessas aventuras Fátima compreendeu que, o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável, acabou sendo parte essencial de sua felicidade. A Fiandeira Fátima e a Tenda Esta história é muito conhecida no folclore grego, onde em muitos de seus temas contemporâneos figuram dervixes e suas lendas. A versão aqui apresentada é atribuída ao Xeque Mohamed Jamaludin de Adrianópolis. Fundou a Ordem Jamalia ("A Formosa"), e faleceu em 1750. Eu quis fazer o intertexto das duas personagens. Uma minha e outra do Xeque Mohamed.
Escrito por Rosa Kapila às 18h42
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Escrito por Rosa Kapila às 19h32
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"Arranco o reboco da pálpebra ressequida, já era ruína. Areia nos olhos,vidro moído em xícara.Uma parede que eu escoro. Sim. Era fim. (Rosa Kapila)
Escrito por Rosa Kapila às 19h25
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