(POEMA DE ROSA KAPILA) O DIA COM DOIS PEDAÇOS "Quero voar com vocês/ em bando/ como um pássaro solidário" ( Dailor Varela ) ( Para meu amigo Dailor Varela ) Vejo um Homero perdido com sua épica Em minha porta. Ele tenta proteger-se da chuva Com seus diários na cabeça Aqueles livros todos me inspiram. Eu finjo que estou em outro tempo Em outro lugar Em outra aurora boreal. Uma lua faz uma festa para mim Um cachorro me dá boa noite com um latido Em minha porta mendigos comem gelo quebrado Cachorros choram latindo Meninas vendem seus corpinhos de boneca E aquele meu amigo cego, fala grego. Em minha porta eu parei de saltar de táxi Porque é sempre dia de tempestade E a manhã acaba de noite. Aos saltos, o dia, em minha porta, /não tem três pedaços. Em minha porta eu sinto aquela fome. Dou marcha à ré e vou comer no boteco /do Paulinho: Riachuelo com Lavradio.
Escrito por Rosa Kapila às 15h56
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(POEMA DE ROSA KAPILA) FORMIGAS NA JANELA ME DÃO BOM DIA A formiga é pequena, mas elas são um exército quando juntas (Raul Seixas) Para minha querida amiga Valma Lopes Se dessa vida só levamos a alma, quero andar muito /até chegar ao mar. Eu e Margaret Atwood já estamos comendo na cozinha; /na própria panela. Assim fazem as pessoas sozinhas. Por baixo desse corpo, sou quase um animal predador. Perdi cinco páginas de poemas esperando passaporte. Azedei. Independência demais... diria meu pai. Devemos substituir a criação pela autobiografia? Qual título darei a esse poema? Uma de minhas especialidades: catacumba. Confeccionarei uma camisola estilizada. Pés descalços, nervosos e fingimento. Habitarei um castelo assustador Se houver corujas fujo para uma catacumba Volto à autobiografia: enquanto esperava o passaporte, Alguém pisou no dedo mais sensível e querido meu. Ai meus sais! Você foi bem vindo e adeus você nega com uma mirada. Limpo o ouvido para a arte de amar. Sem Shakespeare não vivo.
Escrito por Rosa Kapila às 16h08
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POEMA DE ROSA KAPILA) A PRECARIEDADE DA SORTE HUMANA “estranho livro aquele que escreveste, artista da saudade e do sofrer! Estranho livro aquele em que puseste tudo o que eu sinto, sem poder dizer” (Florbela Espanca) Toda a carne que tenho distribuída testa /abaixo, dói. E, ainda dizem que forte sou. Eu ando, eu corro, eu penso em aparar aquela luva /perdida por um astronauta, no interplanetário. Eu invento “a lógica dos possíveis narrativos” em lixo /espacial. O que me salva são os poetas de antigamente, /que me fazem companhia. Avalio encantadores frutos e mistérios de pessoas /escondendo seus sabores. Penso nos grãos de areia que juntei numa latinha /de marrom glacê para recompensas dar-me /em formas irreais. Imagino treinar feituras de sonetos, saltos ornamentais /em cachoeiras, fluxos de energia no Himalaia. Penso muito na precariedade da sorte humana. Lembro-me de um cajueiro velho de Pindamonhagaba. Gosto de relembrar-me da casa do tio Bob de Pinda /e nos moranguinhos que colhíamos pela estrada.
Escrito por Rosa Kapila às 16h31
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(POEMA DE ROSA KAPILA) EU SEMPRE QUIS FAZER POEMAS TOSCOS “o processo de criação narrativa é a transformação do demônio em tema.” ( Vargas Llosa ) Meus alunos dizem que não há mais nada /para se gostar porque odeiam tudo. Então eu percebo quando a angústia se instala /na personagem. Sinto certas saudades que dóem muito. Saudade de me sentir bebé tomando leite /numa garrafa verde E de sapos peidando nos charcos de meus quintais.
Escrito por Rosa Kapila às 16h19
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ROSA KAPILA TOCANDO CÍTARA NO SARAU DA CASA DA GÁVEA (CURADORIA DE PAULO BETTI)
Escrito por Rosa Kapila às 20h53
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PALAVRA-VALISE “... Amor, você é a única boca de que eu seria uma língua” ( Sylvia Plath ) Um osso feito de metal recobre um de meus dedos dos pés Que no frio estrala e no calor se quebra. Eu acredito na eficácia das idéias e nos atos da Ciência. Sigo tombando o barco de meu espírito Abatida Tenho como companhia botões secos de flores Sonhei com amizades seguras mas todos têm seus infernos. Quem me deu alento foi um morto que se levantou E flutuou no plano etéreo... este chorou por mim... Com graça e leveza. Esse sol lindo o dia inteiro foi inútil... Pendências com trabalho... Algumas pessoas em vez de palavras de alento Nos dão inutilidades Alguns preferem oficializar a vida azarada. Tem hora que até os pássaros são infelizes. Assim como eu passo do abismo à alegria Vigio os “gafanhotos” que tentam triturar a minha pele. Sou muito mais rica em desprezo Do que em sabedoria. A rebelião dentro de uma poesia é um escolho. Eu estou no lugar de minha biografia E de minha história. “Nada pode dar certo quando queremos e não queremos.” Fico melhor quando o nariz na vidraça esfrego Do que em dias soprando gafanhotos. Hei de ter tempo para todos os meus trabalhos.
Escrito por Rosa Kapila às 15h33
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ROSA KAPILA E PAULO BETTI
Escrito por Rosa Kapila às 17h38
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