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diário de ROSA KAPILA


A QUENTINHA DO POMBO

“Primeiro, morrem nossos prazeres; depois, nossas esperanças; depois nossos temores. E, então, nossa dívida vence: O pó reivindica o pó, e morremos por nossa vez." (P. B. Shelley)

     Comecei  a fazer RPG  para salvar-me de lordose, cifose e escoliose. Naquela manhã de junho deitei  na esteira da frente e lá estava um esqueleto branco me olhando e a seu lado um belo e colorido mapa do corpo inteiro. Então, deitada, respirando com a  turma e, olhando para a  doutora Kely eu tive a ideia de escrever um livro  sobre todos os ossos do corpo.

     Ainda na clínica fui ao otorrino para  limpar meu ouvido direito. Segurei uma vasilha grande de aço inoxidável  em formato de orelha. Doutor Samir colocou um jato de algum   líquido em meu ouvido, depois pediu que pendesse bem a cabeça para o lado direito. De dentro de meu ouvido saiu: bolas de algodão, tufos de cabelo e umas pedras amarelas que, julguei  serem de cerume. Passei a ouvir porque eu andara surda. Achei tudo muito podre. Doutor Samir não mexia um músculo e perguntei  se era normal sair de dentro de mim  uma nojenteza sem par.

“Já tirei  até  pedaço de madeira de ouvidos. Sujeiras dentro de nossos corpos fazem parte do ser vivo.”

     Depois de tanta luta corporal eu teria que ir a Angra dos Reis  ainda naquele dia resolver uns problemas de concurso. Fui até O Castelo e entrei em um frescão. Viajei ao lado de Cleide, assim a moça ao meu lado se apresentou. Notei que ela queria entabular conversas, histórias, literatura  barata e outros babados. Pedi para trocar de lugar  para ouvi-la melhor, pois  meu ouvido agora, limpo, estava doendo. Contei  como fora minha manhã para ela. A moça vinha de Minas Gerais, não me falou a cidade. Disse-me que a viagem  até Angra  estava lhe causando uma canseira danada, porém tinha que ver sua avó que completaria cem anos.

     Cleide era enfermeira aposentada devido um acidente que sofreu na Via Dutra. Ela voltava do trabalho no Centro do Rio  e frisou muito que amava a profissão, entretanto estava inválida.   Cinco horas da manhã, Peteleco, o motorista...(...)”até hoje não sei como era o nome daquele satanás “ – falou com bastante raiva. O motorista da van parecia  dormir; fez um ziguezague na pista e atropelou uma vaca preta. Muito tempo depois do acidente, David, o dono da vaca preta queria matá-lo. Jurou Peteleco de morte e que o procuraria até no inferno. Observo Cleide  muito espavorida... se ajeita na cadeira, fica em pé e,  logo senta com postura de bailarina. No dia do acidente, Cleide estava na frente da van, sentada ao lado de Peteleco. No atropelamento a vaca preta quebrou o vidro da van e entrou no corpo de Cleide. Em cinco minutos apareceu gente de todo lado com: cutelo, faca,  facão, faquinha, machado e canivete. Teve muita briga  e   disputa na hora de cortarem a vaca.  Cleide gemia de dor assistindo ao espetáculo do corte da famosa  vaca  preta de David. Finalmente sobraram apenas  os chifres e o povo foi embora. Cleide urrava pedindo socorro! Peteleco a colocou  em um táxi que passava, deu um dinheiro ao motorista e disse: “toca com esta mulher pra qualquer hospital.Vaza!”. As pessoas na van sequer sofreram um arranhão, muito menos Peteleco. Cleide usa oitenta parafusos no corpo e anda de bengala. Não recebeu indenização e o motorista da van se intrigou com ela. Quando o acontecimento completou dez anos, Cleide  disse que faria justiça. Contratou  um matador de aluguel. Peteleco  levou doze tiros e morreu. Comigo ela festejou o homicídio; porque sou desconhecida. Ela  disse-me que falou um nome falso pra mim. O fato  aniversariava  dez anos. Ela disse-me  que estava comemorando comigo; pois não podia  contar pra todo mundo, mas a vontade era espalhar outdoor no mundo inteiro. Com todo esse tempo passado quem desconfiaria dela? David  ia matar  o homem que já havia morrido. Cleide  já não morava mais em Angra dos Reis. Encheu a boca: “vingança é a melhor coisa do mundo”. Falou isso  dando três  pancadinhas em minha coxa. “E tem mais: sempre fui uma pessoa de moral inabalável, tenho uma ética tão grande que seria difícil atribuírem  a mim o assassinato daquele monstro”. Quando descemos do ônibus Cleide convidou-me para irmos a um boteco comer uma quentinha. Comecei a  comer e  não saía a vaca preta de minha cabeça. Havia um pombinho só, me olhando... dei a quentinha pra ele. Me despedi de Cleide  ali, no boteco. Lembrei-me de Edgar Allan Poe – existe o crime perfeito. Um dia eu soube que um motorista de van foi fuzilado. Eu também ando muito de van e faço pesquisas sobre esse tipo de transporte. O crime foi perfeito e, eu agora   tenho mais um segredo para guardar.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Rosa Kapila às 00h01
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