SE EU SOUBESSE PINTAR, FARIA DO MEU PÉ UMA PAISAGEM
( “Faça as coisas agradáveis pessoalmente; as coisas desagradáveis,
por intermédio dos outros.”
( Maquiavel )
Os ventos dos mares eram meus...
Fujo, quando vejo o perigo mas meu salto quebra.
Pulo, como se tivesse uma quarta perna.
O vidro já pisado rasga meu pé....tentei dominar o sangue.
Não pense, caro leitor que quero exibir ao mundo minhas mazelas.
Muita gente me pergunta onde arranjo tempo
Para tanto escrever...
Respondo que a inspiração para mim sempre foi um improviso.
Há teóricos que dizem que a poesia provém de uma alma doentia
Eu digo que compensa minhas deficiências psíquicas.
O pé rasgado, deu-me como herança uma unha preta
Que depois ficou mole.
O médico disse-me que ela cairia.
Até hoje espero a queda de minha unha
Como um acontecimento em minha vida.
E sei que minha unha me dilacera.
As unhas apresentam um modo próprio de ser e por elas
Tenho fileiras de sandálias de dar aula me olhando...
Amo o lado bom da dor: ela passa.
Não sei porque mas lembro de mamãe quando espantava
Alguns garotos que vinham com varas
Assaltar a mangueira.
Foi ali, em Teresina que eu tive meu primeiro pé quebrado...
Agora, em sala de aula, um aluno procura em sua bolsa
Um anador para mim.
Então, volto ao vento que seria: paisagem de pé e passagem de dor.
Tem em Botafogo a Rua da Passagem.
Ô rua que me intriga!
Foi passando por ali que os ventos dos mares eram meus.