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Escrito por Rosa Kapila às 22h14
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Fotos:
O velho Jack Kerouac
e os seus nossos irmãos
da rebelião BEAT
Fragmento do meu livro “Kerouac” que sairá em breve impresso.
“Estou entediado/ Estou entediado/ Sou o presidente dos entediados/ Estou enjoado/ Estou enjoado de todas as minhas queixas/ Estou enjoado de todos os bêbados/ Estou enjoado de todos os idiotas/ Estou entediado/ À noite, me entedio, até conseguir dormir/ Entedio-me à luz do dia/ Porque estou entediado/ Estou entediado/ Apenas a porcaria de um tédio...”
(Trecho da música “I’m bored” de Iggy Pop)
Certa vez tentei passar meu tempo arrancando (e contando) os pêlos das pernas com uma pinça, tamanho era o meu tédio. Acho que gostava mais do pinicamento da dor. Foi quando decidi escrever Kerouac. O que vou escrever não é biografia, conto ou romance, trata-se apenas de um fragmento de arte. Tem muito tempo esse projeto em minha cabeça, ele é bastante anterior aos pensamentos de escritura de meu livro “A Valise de Cortázar”.
Decidi escrever Kerouac para livrar-me de detalhes insignificantes de minha vida que tomavam todo o meu tempo. Dessa forma eu me dizia que o meu tempo estava “ralo”. Ou melhor, eu achava que meu tempo não tinha “conteúdo”, naquele período de minha vida. Então eu tive uma epifania e me perguntei: qual o escritor que deu mais movimento à sua vida? Nem precisei pensar muito. Kerouac era o rei da “batida”. Sempre me senti namorada de Kerouac. Sempre senti vontade de fazer declarações de amor a ele. Assim como faço declarações ao sol; este é meu namorado.
Quando lembro de Kerouac eu o imagino usando roupas amassadas, uma pessoa muito simpática. Minha ligação maior com ele vem dos sonhos, pois eu anoto meus sonhos desde criança e ele tem um livro chamado “ O livro dos sonhos” e no final da “Introdução” deste ele diz “dedico este livro de sonhos às rosas do porvir”. Sem loucura nenhuma eu entendo esse cogito como um recado para mim, pois eu sempre sonho com Kerouac. Uma vez nós brigamos num sonho: ele me contou que conseguia escrever dez mil palavras toda noite. Eu dizia: você é louco. E saía correndo. À época meus cabelos ainda eram longos... ele veio atrás de mim, estávamos na Rua Market, em San Francisco, ele me segurava pelos cabelos e meus cabelos transformavam-se em dezenas de canetas que saíam dos poros. Eu morava em São Paulo e tudo que eu desejava na vida era voltar para o Rio de Janeiro.
Fiquei intrigada com o sonho, na mesma hora acordei e entrou em meu quarto uma borboleta preta, comecei uma luta com aquele bicho peludo que me apavora. Eu com todo esse tamanho não consigo botar uma borboleta pra fora do quarto. Acordei Ícaro que ainda era pequeno e aprendeu desde cedo a botar pra fora de casa baratas, borboletas e outros bichos sem matá-los ou mesmo machucá-los. Ele já teve peleja até com ratos e eu fico só monitorando.
Escrito por Rosa Kapila às 19h31
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O Pacífico não é um oceano sossegado e foi em noitadas tempestuosas que Kerouac lavou muitos pratos a bordo de um navio. O comandante chamava sua atenção porque ele não servia o prato com as duas mãos:
“ Isso é maneira de apresentar o almoço a um oficial?”
“Não, senhor.”
“ E mais: eu não tomo suco de abacaxi. Quero laranja!”
“ Trarei suco de laranja, senhor.”
E lá se foi nosso Kerouac, aloprado, desceu as escadas do navio, a correr... quase perdeu o emprego, não pelas frutas trocadas, mas por causa de mulher. Naquela noite o navio atracou no canal do Panamá... e entre palmeiras e cabanas Kerouac se enamora de Rose. Após dez minutos de olhares já estavam de mãos dadas e numa trovoada à meia-noite, iluminando os pântanos salgados e imensidões daquele buraco onde toda a América lança o seu coração e o seu lodo, Kerouac dormiu com Rose num colchão de palha. Quando voltou ao navio às duas da tarde seu chefe olhou-o nos olhos, botando fogo pelas ventas:
“Filho da puta Jackcrack, emborrachaste-te, hem?”
Jack recebe seu salário, põe o saco nas costas e lá se vai outra vez. Nenhum dos marinheiros olham para ele. Olham sim, mas olham com olhos que não vêem. Kerouac seguiu para Nova Orleans e de lá vai para Nova Iorque.
No apartamento do bairro Jamaica Long Island (em Nova Iorque ) Kerouac volta para os braços da mãe, dona Gabrielle. Mais uma das centenas de oportunidades que a mãe lhe dava para que ficasse em casa escrevendo. Ali, o menino Jack se instalou para longos e calmos sonos, dias inteiros de meditação em casa e a escrever. O primeiro passeio que fez foi visitar todos os seus amigos poetas beatniks. Amores!
Jack encontrara, como muitos na vida um jeito especial de se divertir sem gastar muito dinheiro. Na verdade, meus caros leitores: Kerouac sempre foi meu herói secreto. Ele sempre falou por mim: expressou minhas preocupações e interesses mais profundos, como escritora. Antigamente eu colecionava todas as obras de Kerouac, mas nunca consegui dar freio a meus amigos...foi um luta em vão querer grudar-me às obras de Kerouac. Sempre me cegaram... e continuam levando meus Kerouacs. Já me conformei. Compro....compro.. e somem... como a água de uma goteira num chão movediço. Já comprei Kerouac em inglês, francês,
Italiano, não adianta. Adquiri o hábito de, antes de correr para a próxima aventura, ler umas páginas de Kerouac. Continuo sonhando com ele.
O que mais me atrai no escritor são as descrições triviais e os acontecimentos de sua vida detalhados para seus amigos. Ele conseguia fazer de uma simples bobagem uma obra literária. Esse dado é um dos mais difíceis para quem é escritor. Kerouac é seu melhor biógrafo. Não é à toa que Ginsberg tinha uma verdadeira paixão pelo amigo. Allen sentiu o que mais tarde chamaria de uma afinidade especial entre eles, uma reverência emocional pela vida e por sua impermanência, que ele sentiu que partilhava com Kerouac, mais do que com qualquer outra pessoa. Esse amigo via cores e tinha visões com Jack. Talvez, de todos os amigos foi o que mais o entendeu. Sabia do valor de Kerouac. Dizia que todos os potenciais humanos estavam morando naquela cabeça linda. Assim, os amigos beats saíam aos bandos. Todos pediam conselhos ao guru Ginsberg, corriam atrás dele, através da porta aberta, mesas e reservados, bares, quartos, cozinhas e banheiros, olhando casais copulando em fila nas camas de latão, zigue-zague de dezenas de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor e mesas de jogo onde eram feitos jogos com apostas mirabolantes, jogadores pulando, dando gritos inumanos e muito suor e genitais. E pela manhã, todos pelo chão de um bar lotado. Sempre um zumbido vibrante e sem som. Assim nossos meninos beats viveram: vomitando sua vontade de viver.
Escrito por Rosa Kapila às 19h30
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Uma vez um amigo sugeriu a Jack que ele fosse morar numa cabana, como a de Thoreau. Kerouac concordou, pois sua essência era uma visão romântica de si mesmo e começou a batalhar suas viagens. Queria morar num universo sombrio. Todas as fantasias que teve serviu para compor a sua vida e a sua arte. Nada ficou perdido pelos caminhos. Nada o impedia de pôr o pé na estrada. Portanto, Kerouac foi um símbolo de todas as nossas futilidades - a palavra aqui está ressignificada no bom sentido. Lenda e realidade são a mesma coisa para esse escritor. Uma vez Jack escreveu em seu diário: “independente, verdadeiramente louco de independência.” E assim seguiu, com seus sonhos que começaram a dominá-lo cada vez mais. Numa ocasião sonhou que a estrada que seguia para Oeste, em direção aos bosques de Maryland estaria sempre fechada. Diz, no diário, que foi o sonho mais triste que teve porque viu a estrada recuando, enquanto ele permanecia estático. Era seu paraíso perdido. Imaginava-se escrevendo inspirado por “uma idéia sobre sagas, ou lendas”. Mas muito cedo começou a falar sobre si próprio como um escritor sério, sem pensar mais numa carreira como jornalista ou cronista esportivo. E, quando as pessoas debochavam de seus planos enormes ele dizia que passaria uma vida inteira escrevendo sobre o que via com seus próprios olhos, contando tudo com suas próprias palavras, com o estilo que decidisse, estivesse com vinte, trinta, quarenta, ou em alguma idade mais avançada, e juntando tudo como um registro de história contemporânea para que, no futuro fosse possível ver que fielmente aconteceu e o que as pessoas na realidade pensavam. E o sr. Leo, seu pai ficava zangado ouvindo isso e brigava mandando-o procurar um trabalho. E, Jack lavando os pratos na cozinha dos pais respondia: “sou um artista.”
Inquieto, Jack respondia com delicadeza a seus pais, mas estes não sabiam lhe apontar caminhos. O primeiro casamento, com a jovem Edie durou menos de dois meses. Toda vez que Jack se separava de um grande amor ele corria a se alistar na Marinha Mercante.
Trabalhou várias vezes como marinheiro.
Os beats faziam uns rolos danados com as amizades e os amores. Quando Jack conheceu Lucien Carr (que era amigo de sua ex-primeira mulher) ficou totalmente embevecido. Lucien queria ser escritor, mas tinha um enfoque muito mais intelectual do que Kerouac e passava mais tempo falando sobre estética e filosofia do que escrevendo. Eles formavam triângulos, quadrados e quintetos amorosos. Jack deu muita sorte por não ter diretamente sofrido tragédias com seu grupo.
Os beats eram tipo o poema do Drummond... João que amava Teresa que amava Francisco... que amava...
Jack era amigo de todos. E todos gostavam dele. Mas o único rico era Burroughs porque tinha um emprego e recebia dinheiro de seu patrimônio. Ginsberg era apaixonado por todos mas se segurava, era pacífico, místico e zen. Portanto nunca forçou a barra. Quando Jack encostava-se em algum lugar e ficava espiando Burroughs, Ginsberg, Lucien Carr, Kammerer conversarem ficava apatetado com a inteligência e o estilo deles.
A primeira tragédia que assolou os meninos foi quando Dave Kammerer apaixonou-se por Lucien Carr. Este não era homossexual e era assediado o tempo todo pelo amigo. Um dia Lucien Carr matou Kammerer a facada. Nesta época Burroughs estava casado com Johanes mas vivia correndo atrás de rapazinhos e Lucien era apaixonado por Johanes e Ginsberg era apaixonado por Lucien Carr. Então tudo virava uma ciranda. Mas a falta de correspondência amorosa nunca separou ninguém. A Literatura sempre foi mais forte entre eles e os unia. Um dia Burroughs vai fazer uma demonstração com uma arma e Johanes se oferece como alvo. Ele diz que vai brincar de Guilherme Tell. Johanes coloca um um copo na cabeça e Burroughs atira no copo e acaba matando a esposa. Nenhum dos Beats foi preso. Lucien passou pouco tempo num reformatório. Esse episódio da paixão do sexteto e os assassinatos foi transformado em cinema. O nome do Filme em Português é: ANOS LOUCOS e quem faz o papel de Johanes Burroughs é Courtney Love. Johanes desejava ser escritora, mas não conseguiu.
Alguns amigos chamavam Jack de “marinheiro interessante”. Os pais da turma diziam que os filhos eram inocentes... apenas se transformaram porque foram vítimas de amizades decadentes, na cidade má. A cidade aqui é Nova Iorque.
Kerouac tinha a “febre da observação” e levou ao pé da letra a frase de Henry David Thoreau: “quanto mais ar e luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor.” Thoreau vivia numa cabana do lado do lago Walden. A paixão maior do escritor era andar a pé. A de Kerouac, andar de trem. Kerouac bebia na fonte do velho poeta e queria seguir os andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos, especuladores de terras, jornalistas mentirosos, militares esculhambados, religiosos beatos, vendedores de elixir, caçadores de peles... todos esses estradeiros que iam atrás das primeiras estradas continentais - a Nova Califórnia. A única atrapa
lhação era o México que reivindicava a propriedade de seus territórios. Pobre México! E dá-lhe ratos mochileiros. Grande época dos guardas-freios que tanto Kerouac cita em seu On The Roud. Nesse livro Jack pula o tempo todo de trem em trem e como passa fome e frio, meu herói. Tanto crítico fala mal do jeito descontraído de Jack escrever. Até Octavio Paz diz: “ Os beats não mudaram a linguagem nem a poesia, mas continuaram uma tradição. As idéias de Kerouac sobre a escrita espontânea nada mais são que uma variante da escrita automática dos surrealistas.” (in livro: Solo a Dos Voces, de Octavio Paz e Julian Rios. Editorial Lumen, Barcelona, 1973). Meu querido Octavio Paz não gostava de Jack. Paciência.
Escrito por Rosa Kapila às 19h30
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