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diário de ROSA KAPILA


ENGABELAR

“Engabelar = variação  de engambelar. Cruzamento

do quimbundo  “ngmbular”  mais  “enganar”   que

quer dizer : fazer adivinhações;  enganar com falsas promessas;

iludir  jeitosamente. ( Dicionário  Aurélio )

Quimbundo: ( Kimbundu ) indivíduo  dos quimbundos.  Indígenas

Bantos de  Angola.

 

 

Eu te engabelo, oceano atlântico!

O mar não me segura

Mas eu dou  a  bênção  a ele,  de longe.

Há em meus sonhos  registros que estou trafegando sobre  oceanos.

Às vezes, o dia inteiro eu uso  o vocábulo  engabelar, eu adoro

Esse verbo.

Fala-palavra linda que vai, pára, segue  e volta de novo.

Que  sábio  teria inventado  signo  tão mais belo?

Eu até podia  ficar  desalentada

Mas engabelo o tempo

Se bobear engabelo até os sinais  de trânsito  como transeunte

Afobada.

Hoje  estou mais doida do que um louco

Por isso engabelo-me

Como um  Orlando Furioso

Sinapses

Doenças

Dores

O diabo a quatro.

Mas  me vem  um dos sonhos mais lindos: deitada  numa rede

Vermelha   me  balançava, suspensa no  meio do mar,  olhando

Pro céu, com o pezinho na água  dava impulso à rede...

Que  felicidade eu sentia!

Isso sim, é engabelar!

Há muitas pessoas  engabeláveis!

Ou engabeláveis  pessoas!

 



Escrito por Rosa Kapila às 19h02
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QUISESSES OU NÃO, ESTAVAS NO FOGO

“Eu me vendo por bem menos

do que você imagina”

(Nenê  Altro ) In música: Zaratustra e o espelho

dos deuses.

 

 

Com uma bolha de  carne no pé

Fujo da chuva

Achando que sou vítima da vigilância  do céu

Um céu  louro... chispado de fogo

Tenho vontade

De  pedir emprestado uns pés.

Quem,  nesse mundo  de estranhos

Vai  segurar   minha  mão... se eu quebrar

O mesmo pé que já quebrei?

Essas árvores com voluta

São puro imaginário  para  muita gente.

As pessoas não sabem

Que um verso pode ser gritado

Que um verso pode ser cantado

Que uma bolha no pé

Pode ser o pontapé do poema.

Abro  um parágrafo no sonho

Meus papiros  tem  muitas direções

Penso no meu amor virtual

E sinto um arrepio; gelada, nessa rua...

Quantos segredos ainda hei de guardar pra ti.

Se  minhas lágrimas

Fossem  puras como

A  água dessa chuva...

Lá vem um morcego  gritando pro  meu lado

Tenho medo e entro na rua das flores

Nada pode  ser tão cruel   quanto esse vazio que  sinto

Não  estou preocupada   com aqueles

Que esmagam meus poemas.

Assim, nessa  multidão eu só tenho  vocês,

Queridos amigos: André Breton/ Sade/ Paracelso/

Rosseau/ Lautréamont/ Freud/ Apollinaire. Meus queridos

Aventureiros do espírito.

Eu odeio  esse caminho  ladeado de edifícios/ igrejas/ escolas/

Quartéis/ fábricas/ lojas/ bancos/  eu detesto essas glórias

Multiplicadas.

Eu prefiro minhas reservas filosóficas

Eu prefiro uma ponte  coberta de uma outra era.

Um sonho meu vem bem bonito

Bem saído  do mar. Meu coração bate

Bate muito bem nesse mês de agosto.

Eu queria tanto  que a perfeição do corpo  coubesse em mim...

Mas não...  entorto e quebro pés.

Meus  pesadelos  escondidos

Aparecem agora.

 

 



Escrito por Rosa Kapila às 16h31
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