ONDE AS ALMAS SE ESCONDEM
“Diz o ensinamento: a devoção é o fundamento
da espiritualidade”
( Helena Roerich )
Para cumprir o processo do olhar existe uma força
Que alimenta a raiz da dor
O excesso de muralhas...
Derrubar
Ir ao lugar onde as almas se escondem
Espiar por baixo
Da cabana
Assustar
Espantar
Tentar acalmar o coração
Quando este é um caçador solitário
Como o de Carson McCullers
Passar pelos dias
Magnetizar a noite em suas bifurcações.
Muito prazer: eu sou a morte em muitos formatos
Diz ela disfarçada de oráculo
Há um penhasco ali
- o mar
- os peixes
- as correntes
- um pescador
- as pedras
- uma fogueira acesa com cabelo
- tundra gelada
Nos escritos existem muitos finais.
Escrito por Rosa Kapila às 15h38
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OS MÁGICOS DO UNIVERSO
“Achando-me bastante vazio, sem nada sobre o que escrever,
ofereci meu eu a mim mesmo como tema e assunto.”
(Michel de Montaigne)
Devo ter cuidado com as idéias, atos e palavras dos outros.
Meus ouvidos como ventos
E os olhos como janelas de vaivém
Parecidas com as portas do faroeste captam energia extra
E a boca canta para espíritos notáveis.
Quero ser a religiosa da história que não seja a de Diderot
Para incensar aqueles que viajaram o mundo todo, para calçar
Os pés na paz.
Eu quero esse dom sobre tudo isso.
Andar com a força à frente.
Dar passeio
E escrever poemas.
Visualizar a caveira-boneca-incandescente
O jardim revolvido
Com uma flor no meio
Encher os ventrículos do coração
Aprender a aprender
Seguir a contemplação mais profunda
Buscar os mágicos do universo.
Escrito por Rosa Kapila às 14h50
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UMA EPIFANIA
“Se a fama me pertence, eu não terei como
escapar dela – se não, o mais longo dos dias
passará por mim e a aprovação de meu
cachorro me desculpará.”
(Emily Dickison )
Preciso colocar branco nessa casa,
A cor do novo
A cor da alma livre do corpo
A cor do leite materno.
As epifanias
Também costumam ser brancas.
Há segredos numa casa
Que ninguém pode pensar
Quero ficar extasiada
De simplesmente saber algumas histórias
De olhar:
A brecha da lagartixa
O ritmo da solidão
A caixa de fósforo de um lado
O texto de minha história, alterado.
O sopro de vida doado
Pelos meus álbuns de fotografias
Cada coisa ficando em seu lugar
Num mundo subterrâneo
A tentativa de resgatar
Uma doçura
Vigiando
Criando
E o grande medo do infundado.
Escrito por Rosa Kapila às 15h52
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ESSES ABALOS FRITAM-ME OS OSSOS
“(...) Ela pensa que pode advertir as estrelas.
Uma escritora é essencialmente uma espiã.
Querido amor, eu sou essa garota.”
( Anne Sexton. In: The black art )
Quero a mim ficar próxima e profunda
Como essas laranjas na fruteira.
Voltarei a ter coisas: ciúmes e perfumes fortes.
Espero ver qual mapa virou a marca da vacina
em meu braço.
Sonho para que esse rascunho de meu corpo
seja melhorado.
Faço transações para deixar de ter sonhos infantis
de paraísos perdidos e achados.
Gosto de pastorar o leite fervendo (porque penso no fogão)
e o cofo de milho verde das bicadas do galo de briga.
Isso tudo é achado& perdido de infância.
Se eu ainda fosse pequena, morreria, coagulada
em meu próprio sangue.
Esses agudos e sonoros lembretes, somados, formam
medusas de pavor.
Esses abalos fritam-me os ossos.
Escrito por Rosa Kapila às 18h46
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ALGUÉM QUE PLANTA PISTAS
“Não sei como explicar o fato de não
sabermos que sabemos certas coisas.”
( Santo Agostinho )
Entrei no bar e fiquei observando o homem
Que bebia como peixe.
Veio um pensamento terrível olhando
A Rua da Quitanda
“Daqui a cem anos não haverá nenhum de nós,
se abalroando por aqui.”
Bem no número 27
Eu tive meu primeiro emprego no Rio.
Sentada no banco alto
Enquanto tomo meu café com pão de queijo
E converso com meu osso calcâneo.
Questiono o cabelo da moça que passa
Varrendo meu rosto.
O mendigo com cascorões de cima abaixo
Abaixo do corpo azara meu pão.
Aponto com o dedo a garçonete e faço um sinal
Com a cabeça para que o sirva.
“Oh Deus! Esta é uma alma afogada.”
ao meio-dia esses acontecimentos esmaltam
a lua que se encontra invisível
no céu.
Escrito por Rosa Kapila às 17h30
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