EU VOU CONTINUAR NOIVA DO BEAT
“Estudo a mim mesmo mais do que qualquer
outro assunto. Essa é a minha metafísica; essa
é minha física.”
(Michel de Montaigne – 1533-1592)
Se os filósofos constróem um sistema coerente
Com dados básicos, o poeta não inventa nada.
O poema não tem que prestar, o poema tem que ser seu.
No passado, a poesia se alimentava com uma tradição.
Hoje, a arte reflete uma realidade tão presente
Que o poeta tem que criar a transcendência com
O cheiro do abacaxi.
Ninguém é original porque a Literatura
Se consome nela mesma.
A fonte da Literatura é a Literatura
E seus autores.
Quando perdeu as rimas a poesia ficou estranha
e a estranheza é a força da poesia.
Assim vira uma ciranda:
Rosa se alimenta de Anne Sexton
Que estilizava Katherine Mansfield
Que burilava Íris Murdoch
Que se inspirava em Kerouac
Que desfolhava Mayakovsky
Que lia Proust
Que copiava em cadernos Virginia Woolf
Que recitava James Joyce
Que imitava Kafka
Que respirava Dostoievsky
Que suspirava Homero.
Escrever um poema é como encontrar
Uma clareira.
Portanto, eu vou continuar noiva do beat
Vou encarnar o Jack
Tesouro debaixo de rede, cheirando a querosene
E quase fogo de lamparina -;
O grude de meu dedão
Como marca dágua
E digital de fogueira em negrume à socapa.
Consagro-te areia movediça!
O cadáver está nu no bairro
Mais famoso do mundo: Copacabana!
Dante, revelador
Me mostra a cor das ruas do inferno
E Brecht, conduzindo carroças
Disse todos os nomes
Das gentes dos campos
E eu, sem saber muitas línguas
Me sinto em casa com Íris Murdoch
Eu espero que sempre haja por esse mundo afora
Noivas e noivos dos beats e de um Salvador Dali.
O início prosaico do poema é proposital
& ETC




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