O Pacífico não é um oceano sossegado e foi em noitadas tempestuosas que Kerouac lavou muitos pratos a bordo de um navio. O comandante chamava sua atenção porque ele não servia o prato com as duas mãos:
“ Isso é maneira de apresentar o almoço a um oficial?”
“Não, senhor.”
“ E mais: eu não tomo suco de abacaxi. Quero laranja!”
“ Trarei suco de laranja, senhor.”
E lá se foi nosso Kerouac, aloprado, desceu as escadas do navio, a correr... quase perdeu o emprego, não pelas frutas trocadas, mas por causa de mulher. Naquela noite o navio atracou no canal do Panamá... e entre palmeiras e cabanas Kerouac se enamora de Rose. Após dez minutos de olhares já estavam de mãos dadas e numa trovoada à meia-noite, iluminando os pântanos salgados e imensidões daquele buraco onde toda a América lança o seu coração e o seu lodo, Kerouac dormiu com Rose num colchão de palha. Quando voltou ao navio às duas da tarde seu chefe olhou-o nos olhos, botando fogo pelas ventas:
“Filho da puta Jackcrack, emborrachaste-te, hem?”
Jack recebe seu salário, põe o saco nas costas e lá se vai outra vez. Nenhum dos marinheiros olham para ele. Olham sim, mas olham com olhos que não vêem. Kerouac seguiu para Nova Orleans e de lá vai para Nova Iorque.
No apartamento do bairro Jamaica Long Island (em Nova Iorque ) Kerouac volta para os braços da mãe, dona Gabrielle. Mais uma das centenas de oportunidades que a mãe lhe dava para que ficasse em casa escrevendo. Ali, o menino Jack se instalou para longos e calmos sonos, dias inteiros de meditação em casa e a escrever. O primeiro passeio que fez foi visitar todos os seus amigos poetas beatniks. Amores!
Jack encontrara, como muitos na vida um jeito especial de se divertir sem gastar muito dinheiro. Na verdade, meus caros leitores: Kerouac sempre foi meu herói secreto. Ele sempre falou por mim: expressou minhas preocupações e interesses mais profundos, como escritora. Antigamente eu colecionava todas as obras de Kerouac, mas nunca consegui dar freio a meus amigos...foi um luta em vão querer grudar-me às obras de Kerouac. Sempre me cegaram... e continuam levando meus Kerouacs. Já me conformei. Compro....compro.. e somem... como a água de uma goteira num chão movediço. Já comprei Kerouac em inglês, francês,
Italiano, não adianta. Adquiri o hábito de, antes de correr para a próxima aventura, ler umas páginas de Kerouac. Continuo sonhando com ele.
O que mais me atrai no escritor são as descrições triviais e os acontecimentos de sua vida detalhados para seus amigos. Ele conseguia fazer de uma simples bobagem uma obra literária. Esse dado é um dos mais difíceis para quem é escritor. Kerouac é seu melhor biógrafo. Não é à toa que Ginsberg tinha uma verdadeira paixão pelo amigo. Allen sentiu o que mais tarde chamaria de uma afinidade especial entre eles, uma reverência emocional pela vida e por sua impermanência, que ele sentiu que partilhava com Kerouac, mais do que com qualquer outra pessoa. Esse amigo via cores e tinha visões com Jack. Talvez, de todos os amigos foi o que mais o entendeu. Sabia do valor de Kerouac. Dizia que todos os potenciais humanos estavam morando naquela cabeça linda. Assim, os amigos beats saíam aos bandos. Todos pediam conselhos ao guru Ginsberg, corriam atrás dele, através da porta aberta, mesas e reservados, bares, quartos, cozinhas e banheiros, olhando casais copulando em fila nas camas de latão, zigue-zague de dezenas de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor e mesas de jogo onde eram feitos jogos com apostas mirabolantes, jogadores pulando, dando gritos inumanos e muito suor e genitais. E pela manhã, todos pelo chão de um bar lotado. Sempre um zumbido vibrante e sem som. Assim nossos meninos beats viveram: vomitando sua vontade de viver.