diário de ROSA KAPILA


08/10/2008


RATATUIAS

(...)” Mas imagina se você não tivesse ninguém. Imagina

se não pudesse entrar no alojamento e jogar cartas

porque é preto. O que acha disso? Imagina se tivesse

que sentar  aqui e ler livros. Livros não servem. Um sujeito

precisa de companhia. O cara fica maluco se não tiver

companhia – lamentou-se” (...)

(In:  Ratos e Homens, de John  Steinbeck )

“Escrever é uma questão de invenção, não de sentimento”

(Philip Roth )

 

 

Conviver com ratos por todos os lados: eis algumas sinas.

Toda palavra  está em estado de poesia

E se esta  não se transforma  em poema

É   porque o mundo externo é muito poderoso.

Por isso terás  uma gargalhada satânica

Por isso  ter-se-á  uma criatividade monstruosa

Senão um bando  de ratatuias te comerão pelos pés.

Praticas com letras e palavras  dizer que és

Um  pedaço de carne  que sente prazer.

E pensar  que ratatouille em francês  é um delicioso prato

Feito de legumes.

O poema é um vestido aberto

Convidando a todos para imprevisíveis significados.

Se Aristóteles  nos diz  que lírico  é uma palavra  cantada

Onde anda a luz que os gregos deram para o povo de hoje?

Escrito por Rosa Kapila às 02h16
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04/10/2008


Meu coração ficou feliz quando li sua mensagem semana passada. Sexta-feira fiquei triste por não falar com vc. Agora li seu blog, Kerouac, Kerouac, ai, ai... nem sei o  que dizer.Foi uma pena não termos conversado dia 26/09, sexta vou chegar mais cedo, seis horas.

É um privilégio conviver, mesmo que brevemente com vc. poetisa. 

 Leila Sales (Estácio Madureira)

 

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 22h46
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Carta de Naiana Cardoso Silva para Rosa Kapila

 

Oi flor como vai? tudo bem com vc.? espero q sim... desculpe eu ñ ter entrado mais em contato foi muita correria e a falta de tempo tendo q dar conta de trabalho e estudo tudo estava dificil...querida quero te dizer q estou encantada com o seu livro... nossa q maneira espetacular de escrever...as situações do cotidiano retratadas de forma tão marcante e original  q e eu leio e releio e ñ quero parar nunka... porq a cada nova leitura parece q vou crescer como leitora...tive observando pontos bem característicos na obra q me intrigaram bastante...notei q vc usa em "caixa alta" palavras e expressões q a medida q fui enumerando fui notando q elas podem ou ñ ter uma ligação q serve para chamar a atenção da recepção(leitores) como algo ou um alerta e ainda pode ter um significado mais além ñ sei... e também quando vc as usa isso se dá de forma recorrente porq dos 14 contos parece-me q só dois ñ tem isso e tem momentos q vc explica aquela palavra ñ pelo fato de estar em "caixa alta" mas simplesmente aquela palavra ou expressão destacada você fala,fala,fala dela e há outras q simplesmente elas estão só ali dakela forma...percebi q vc. é uma autora do lado surreal rsrsrrsrrs legal...gostei principalmente do primeiro(Cerejas do Himalaia) e do terceiro(caranguejos metálicos) eles retratam coisas um tanto inacreditáveis...esse seu surrealismo é extraordinário...acredito q o conto Pulso de lamê parece ser a centralidade da obra o fio condutor do surrealismo questionamentos  q marcam a narrativa vejo q parece uma teia q interliga todos dando respostas aos questionamentos mesmo q sejam fáticos... vc. é uma autora q questiona bastante da mais simples pergunta até a mais filosófica e me indago porq...sendo q ñ consigo perceber se seria para a recepção responder ou se suas citações e dissertações as respondem...minha kerida eu ñ sei se tudo isso q eu lhe escrevi traz realmente pelo menos um pouco do q seja a sua obra...mas espero q vc veja q eu li e estou muito feliz por ter tido o prazer de ler e de conhecer vc q agora mais do q nunka receberá meu carinho e minha admiração...bjos e abraços...Na. 

(Naiana Cardoso da Silva – aluna  de Letras da UFPI  (Universidade Federal do Piauí – em Teresina), estudiosa de minha  obra. Naiana atualmente  faz uma Desconstrução de  meu  livro  Pulso  de Lamê, publicado em 1988  - editora Imago, Rio /RJ )

Escrito por Rosa Kapila às 22h38
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“EL  CONDOR  PASSA”

“O poeta  não deve atravessar um intervalo com um passo

quando pode atravessá-lo  com um salto.”

(Joseph Joubert )

 

 

Depois de tanto sofrer e vaguear eu consigo atravessar o acaso.

Amanhã  viverei comigo e  entenderei a delícia  das alturas.

Calo-me e escuto-me.

Escuto  Janis Joplin como se ouve um self

Janis  é um dobrar  de floresta

A vida e o  tempo

Me respondo como eu quero

Janis parece uma cesta que pula/ uma fada  sobrevoando o Texas/

Janis é um  Trickster que só quer agitar as coisas/ pedra azule

Diferente de mim  que só  o papel e os livros conseguem saciar-me.

Duras como carne de pescoço

Em algum ponto inibimos  o futuro

Porque o  corpo se lembra

Porque  os ossos  se lembram

Porque as articulações se lembram

Vamos jorrar recordações.

Escrito por Rosa Kapila às 15h22
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03/10/2008


SYLVIA PLATH

“Essa  morte era minha”

(Anne  Sexton)

 

Debaixo da árvore tipo um ser humano de nervos expostos

Li  o último  poema de Sylvia Plath

Encaracolada  em seu feto morto.

Sylvia  mata,  retalha e bebe  o sangue de alguns vivos.

Tanto prodígio... Tanto nada.

A morte preparada  em calda de maçã.

Preparada  nas vértebras de Ted

Preparada  em montanha de ovo gôro

Preparada  na inveja e calúnia de Anne Sexton

Preparada nas impurezas de sua mãe

Preparada  na mortalha de um anjo

Preparada em recheio folhudo empaçocado de agulhas

Preparada  para ironizar o vento

Preparada   para quebrar todos os manequins em seus casacos de pele.

Essa flor  desacordada e perdida  ondeia uma lua morta

Que fotografa o osso roído pelo cão  de Sylvia Plath

Enquanto ela recita Chaucer  às vacas.

Olho  para meu telefone  preto,  aquele que não tem voz. 

 

Escrito por Rosa Kapila às 00h20
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29/09/2008


O CAFÉ LITERÁRIO FERNANDO PESSOA E O CURSO DE LETRAS DA UNIVERSIDADE    ESTÁCIO  DE SÁ DE NOVA IGUAÇU CONVIDAM A  TODOS  PARA  UMA  MESA  REDONDA COM OS CONTISTAS DAS TERRAS BAIXAS.
Dia  09 de outubro - quinta feira, das  18  hs às 20:30 - auditório da Estácio de Nova Iguaçu. Já confirmaram presença os seguintes escritores brasileiros: Marcos Augusto Almeida  Nunes, Manoel Ricardo Simões, Wagner de Freitas Cordeiro, Joseane Antunes Cataldo, Maria Gilda  Alves de Oliveira, Victor Hugo de Oliveira Araújo e Rosa Kapila.
O evento valerá  5 horas PTP   no curriculum para alunos regularmente matriculados em qualquer Estácio.
 

Escrito por Rosa Kapila às 13h41
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20/09/2008


PALAVRA-VALISE

“...  Amor,  você  é a única boca

de que eu seria uma língua”

(  Sylvia Plath )

 

 

Um osso feito de metal recobre um  de  meus dedos dos pés

Que no frio  estrala  e  no calor se quebra.

Eu acredito  na eficácia das idéias e nos atos da Ciência.

Sigo  tombando  o barco de meu espírito

Abatida

Tenho como companhia  botões secos de flores

Sonhei com amizades  seguras mas todos  têm seus infernos.

Quem me deu alento  foi  um morto  que se levantou

E flutuou  no plano etéreo...  este chorou  por mim...

Com graça e leveza.

Esse sol  lindo  o dia inteiro foi inútil...

Pendências  com trabalho...

Algumas pessoas em vez de palavras de alento

Nos dão inutilidades

Alguns preferem oficializar a vida azarada.

Tem hora  que até os pássaros são infelizes.

Assim como eu passo  do abismo  à  alegria

Vigio  os  “gafanhotos” que  tentam  triturar  a  minha  pele.

Sou  muito mais rica  em desprezo

Do que em sabedoria.

A rebelião dentro de uma  poesia é um escolho.

Eu estou  no lugar de minha biografia

E de minha história.

“Nada  pode   dar certo  quando queremos e não queremos.”

Fico melhor  quando  o nariz na vidraça  esfrego

Do  que em dias soprando gafanhotos.

Hei  de ter tempo  para  todos os meus trabalhos.

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 23h53
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19/09/2008


MORDER O AR

“Um homem deve engolir um sapo toda manhã se

quiser  ter certeza de não encontrar  nada mais

repugnante antes de o dia  terminar.”

( Chamfort )

 

 

 

Os  estudiosos  das células solares dizem

Que na coroa do astro-rei há um monte de enigmas.

O Sol  não é um estranho  que passa,  é um pai que fica.

É  como aquele  SUSTENTO  que nos aparece do nada.

Torção e tensão

O ganho inesperado  das marteladas do isolamento

Recolher os  indícios  que nos levam ao  monte de enigmas

Morder o ar.

Encher os pulmões  de cheiros.

Ir atrás  de  nossa turma.

Na natureza o remédio  adequado é a persistência.

Um sábio anseio

Uma lembrança dá sustento.

Cinco minutos de contemplação  em águas  calmas.

A persistência faz com que  corramos  com a perna quebrada.

Como uma loba

Isso  não é algo  que se faça

É algo que se é

Vicejar

Ser uma mulher de: Daomé/ dos  Camarões/ da Nova Guiné/

Da Letônia/ dos Países Baixos/ da Serra Leoa/ da Guatemala/

Do Haiti/ da Polinésia/ de Tippicanoe...

Digam    o nome  de um país/ de uma raça/ de uma religião/

De uma tribo/ de uma cidade/ de uma aldeia/  de um solitário

Posto  fronteiriço...

Tatear

Sempre.

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 14h08
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14/09/2008


UM JARDIM DE PÊSSEGOS

“As três coisas que o iniciante contemplativo

deve praticar: ler, pensar e rezar.”

(in livro: The Cloud of Unknowing -  A  Nuvem do

desconhecimento )

autor: Monge inglês anônimo na segunda metade

do século XIV

 

 

 

A  vida criativa  é  o alimento e a água para  a alma.

É  um saco de sementes e um jardim de pêssegos amarelos-sol.

As  tormentas  da poética  têm  recursos  espantosos

E às vezes vivem muito  tempo,  sem nenhum alimento.

Vaguear  até  onde não se  pode é tirar o leite na casa   do carneiro.

O melhor remédio para a infertilidade da escrita, é escrever.

Meu Deus  nunca me prenda no gelo

Porque nesse dia eu terei  o beijo frio da morte.

Porque nesse  dia não nascerá  mais de mim uma palavra.

Devo apanhar  logo a caneta  e parar de  resmungar.

Peço ao meu corpo que se mexa  como uma  bailarina

Tranco-me  num quarto ou caminho sob os céus

Exerço minha arte

Vou em frente

Dedico todas as minhas forças a respirar bem.

Esperar e agüentar.

Escrito por Rosa Kapila às 15h10
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06/09/2008


Escrito por Rosa Kapila às 22h14
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 Fotos:

O velho Jack Kerouac 

e os seus nossos irmãos

da rebelião BEAT

 

 

 

Fragmento do meu livro “Kerouac”  que sairá  em breve impresso.

 

“Estou entediado/ Estou entediado/ Sou o presidente dos entediados/ Estou enjoado/ Estou enjoado de todas as minhas queixas/ Estou enjoado de todos os bêbados/ Estou enjoado de todos os idiotas/ Estou entediado/ À noite, me entedio,  até conseguir dormir/ Entedio-me à luz do dia/ Porque estou entediado/ Estou entediado/ Apenas a porcaria de um tédio...”

                                                                         (Trecho da música “I’m bored” de  Iggy Pop)

 

 

 

     Certa vez tentei passar  meu tempo   arrancando (e contando)  os pêlos  das pernas com uma pinça, tamanho  era o meu tédio. Acho  que gostava mais do pinicamento da dor. Foi quando decidi escrever Kerouac. O que vou escrever não é biografia, conto ou romance, trata-se apenas de um fragmento de arte. Tem muito tempo esse projeto em minha cabeça, ele é bastante anterior  aos pensamentos  de escritura de meu livro “A Valise de Cortázar”.

     Decidi escrever Kerouac   para livrar-me de detalhes insignificantes de minha vida que tomavam todo o meu tempo. Dessa forma eu  me dizia que o meu tempo estava “ralo”. Ou  melhor,  eu achava que meu tempo não tinha “conteúdo”, naquele período de minha vida. Então eu tive uma  epifania e me perguntei: qual o escritor  que deu  mais movimento à sua vida? Nem precisei pensar muito. Kerouac era o rei da “batida”. Sempre me senti namorada de Kerouac. Sempre senti vontade de fazer declarações de amor a ele. Assim como faço declarações  ao sol; este é meu namorado.

      Quando lembro de Kerouac eu o imagino usando roupas amassadas, uma pessoa muito simpática. Minha ligação maior com ele vem dos sonhos, pois eu anoto meus sonhos desde criança e ele tem um livro  chamado  “ O livro dos sonhos”  e no final da “Introdução” deste ele diz “dedico  este livro de sonhos às rosas do porvir”.  Sem  loucura nenhuma eu entendo esse cogito  como um recado para mim, pois eu sempre sonho com Kerouac. Uma vez nós brigamos num sonho: ele me contou que conseguia escrever  dez mil palavras toda noite. Eu dizia:  você é louco. E saía correndo. À época meus cabelos ainda eram longos... ele veio atrás de mim, estávamos na Rua Market, em San Francisco, ele me segurava pelos cabelos e meus cabelos   transformavam-se em dezenas de canetas  que saíam dos poros. Eu morava em São Paulo e tudo que eu desejava na vida era voltar para o Rio de Janeiro.

Fiquei intrigada com o sonho,  na mesma  hora acordei e  entrou em meu quarto  uma borboleta preta,  comecei uma luta com aquele bicho peludo que me apavora. Eu com todo esse tamanho não consigo botar uma borboleta pra fora do quarto. Acordei  Ícaro que ainda  era  pequeno  e aprendeu  desde cedo  a botar  pra fora  de casa baratas, borboletas e outros bichos sem matá-los ou mesmo machucá-los. Ele já teve peleja até com ratos e  eu fico só monitorando.

Escrito por Rosa Kapila às 19h31
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     O  Pacífico não é um oceano sossegado  e foi em noitadas tempestuosas que Kerouac lavou muitos pratos a bordo de um navio. O comandante  chamava sua atenção porque ele não  servia  o prato com as duas mãos:

        “ Isso é maneira de apresentar o almoço a  um oficial?”

        “Não, senhor.”

        “ E mais: eu não tomo suco de abacaxi. Quero laranja!”

        “ Trarei suco de laranja, senhor.”

        E  lá se foi  nosso Kerouac,  aloprado,  desceu as escadas  do navio, a correr... quase perdeu o emprego, não  pelas frutas trocadas, mas por causa de mulher. Naquela noite  o navio atracou no  canal do Panamá... e entre  palmeiras  e   cabanas Kerouac se enamora de  Rose.  Após   dez minutos de  olhares  já estavam de mãos dadas  e numa trovoada  à meia-noite, iluminando os  pântanos  salgados e imensidões daquele buraco onde toda a América lança o seu coração  e o seu lodo, Kerouac dormiu com Rose num colchão de palha. Quando voltou ao navio às duas  da tarde seu chefe olhou-o nos olhos, botando fogo pelas ventas:

     “Filho da puta Jackcrack, emborrachaste-te, hem?”

      Jack recebe seu salário, põe o saco nas costas e lá se vai outra vez. Nenhum  dos marinheiros olham para ele. Olham sim, mas olham com olhos que não vêem. Kerouac seguiu para   Nova Orleans e de lá  vai  para Nova Iorque.

     No apartamento do bairro Jamaica Long Island (em Nova Iorque ) Kerouac  volta para os braços da mãe,  dona Gabrielle. Mais  uma das centenas de oportunidades   que a mãe lhe dava  para que ficasse em casa escrevendo. Ali,  o menino Jack  se instalou para longos e calmos  sonos,  dias inteiros  de meditação em casa e a escrever.  O primeiro passeio que fez foi visitar todos os seus amigos  poetas beatniks. Amores!

      Jack encontrara, como muitos na vida   um jeito especial de se divertir sem gastar muito dinheiro. Na verdade, meus  caros leitores: Kerouac  sempre foi meu herói secreto. Ele sempre falou por mim:  expressou minhas  preocupações e interesses mais profundos, como escritora. Antigamente eu colecionava todas as obras de Kerouac, mas nunca  consegui dar freio a meus amigos...foi um luta em vão querer  grudar-me às obras de Kerouac. Sempre me cegaram... e   continuam levando meus Kerouacs. Já me conformei. Compro....compro.. e somem... como  a água de  uma goteira num chão movediço. Já comprei Kerouac em inglês, francês,

Italiano, não adianta. Adquiri o hábito de, antes de correr para a próxima aventura, ler umas páginas de Kerouac. Continuo sonhando com ele.

     O que mais me atrai no escritor são as  descrições triviais e os   acontecimentos de sua vida  detalhados para seus amigos. Ele conseguia fazer de uma simples bobagem uma obra literária. Esse dado é um dos mais difíceis para quem é escritor. Kerouac é seu melhor biógrafo. Não é à toa que  Ginsberg  tinha uma verdadeira paixão pelo amigo. Allen sentiu o que mais tarde chamaria de uma afinidade especial entre eles, uma reverência emocional pela vida e por sua  impermanência, que ele sentiu que  partilhava  com Kerouac, mais do que com qualquer  outra pessoa. Esse amigo via cores e tinha visões  com Jack. Talvez, de todos os amigos foi o que mais o entendeu. Sabia do valor de Kerouac. Dizia que todos os potenciais humanos estavam morando naquela cabeça linda. Assim, os amigos beats  saíam aos bandos. Todos  pediam conselhos ao guru Ginsberg, corriam atrás dele, através da porta aberta, mesas e reservados, bares, quartos, cozinhas e banheiros, olhando casais copulando em fila  nas camas de latão, zigue-zague  de  dezenas  de redes,  junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor e mesas de jogo onde  eram  feitos jogos  com apostas mirabolantes,  jogadores pulando, dando gritos inumanos e muito suor e genitais. E pela manhã, todos pelo chão de um bar lotado. Sempre um zumbido vibrante e sem som. Assim nossos meninos beats viveram: vomitando sua vontade de viver.

Escrito por Rosa Kapila às 19h30
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Uma vez um amigo sugeriu a Jack que ele  fosse morar numa cabana, como a de Thoreau.  Kerouac  concordou, pois sua  essência era uma visão romântica de si mesmo e começou a batalhar suas viagens. Queria  morar num universo sombrio.  Todas as fantasias  que teve serviu para compor a sua vida e  a sua arte. Nada ficou perdido pelos caminhos. Nada o impedia de pôr o pé na estrada. Portanto, Kerouac foi   um símbolo de todas as nossas futilidades -  a palavra  aqui está  ressignificada no bom sentido. Lenda  e realidade são a mesma coisa para esse escritor. Uma vez Jack escreveu em seu diário: “independente, verdadeiramente  louco de independência.” E assim seguiu, com seus sonhos  que começaram a dominá-lo cada vez mais. Numa  ocasião sonhou  que a estrada que  seguia para Oeste, em direção aos bosques de Maryland estaria sempre fechada. Diz, no diário, que foi o sonho mais triste que teve  porque viu a  estrada recuando, enquanto ele permanecia  estático. Era seu paraíso perdido. Imaginava-se  escrevendo inspirado  por  “uma  idéia sobre sagas, ou lendas”. Mas muito cedo  começou a falar sobre si próprio como um escritor sério, sem pensar mais numa carreira  como jornalista ou  cronista esportivo. E, quando as pessoas debochavam  de seus planos enormes ele dizia  que passaria uma vida inteira  escrevendo sobre o que via com seus próprios olhos, contando tudo com suas  próprias palavras, com o estilo que decidisse, estivesse com  vinte, trinta, quarenta, ou em alguma idade mais avançada, e juntando tudo como um registro de história contemporânea para que,  no futuro  fosse possível ver que  fielmente aconteceu e o que as pessoas na   realidade pensavam. E o sr. Leo, seu pai  ficava zangado ouvindo isso e brigava mandando-o procurar um trabalho. E, Jack  lavando os pratos  na cozinha dos pais respondia: “sou um artista.”

     Inquieto, Jack respondia com delicadeza a seus pais, mas estes não sabiam lhe apontar caminhos.  O primeiro casamento, com a  jovem Edie  durou menos de dois meses. Toda vez que Jack se separava de um grande amor ele  corria a  se alistar  na Marinha Mercante.

Trabalhou várias vezes como marinheiro.

     Os beats faziam uns rolos danados  com as amizades e os amores. Quando Jack conheceu  Lucien Carr (que era amigo de sua ex-primeira mulher) ficou totalmente embevecido. Lucien queria ser escritor, mas tinha um enfoque muito mais intelectual do que Kerouac e passava mais tempo falando sobre estética e filosofia do que escrevendo. Eles formavam triângulos,  quadrados  e quintetos  amorosos. Jack deu muita sorte por não ter  diretamente  sofrido tragédias  com seu grupo.

      Os beats eram tipo o poema do Drummond... João que amava Teresa   que amava Francisco...  que amava...

Jack era  amigo  de todos. E todos gostavam dele. Mas o único  rico era  Burroughs porque  tinha um emprego e recebia dinheiro de seu patrimônio. Ginsberg era apaixonado por todos  mas se segurava, era pacífico, místico e zen. Portanto nunca forçou a barra. Quando Jack encostava-se em algum lugar  e ficava espiando  Burroughs, Ginsberg, Lucien Carr, Kammerer conversarem ficava apatetado com a inteligência e o estilo deles.

     A primeira tragédia que assolou os meninos foi quando  Dave Kammerer apaixonou-se por Lucien Carr. Este  não era homossexual e era  assediado o tempo todo pelo amigo. Um dia   Lucien Carr   matou  Kammerer a facada. Nesta época  Burroughs estava casado com  Johanes  mas  vivia correndo atrás de rapazinhos e Lucien era apaixonado por Johanes e Ginsberg era apaixonado por Lucien Carr. Então  tudo virava uma ciranda. Mas a falta de correspondência amorosa nunca  separou ninguém. A Literatura sempre foi mais forte entre eles e os unia. Um dia  Burroughs vai fazer uma demonstração com uma arma e Johanes se oferece como alvo. Ele diz que vai brincar de Guilherme Tell. Johanes coloca um um copo na cabeça  e Burroughs atira no copo e acaba matando a esposa. Nenhum dos Beats foi preso. Lucien passou pouco tempo num reformatório.  Esse episódio da paixão do sexteto  e os assassinatos  foi   transformado em cinema. O nome do Filme em Português é: ANOS LOUCOS e quem faz o papel de  Johanes Burroughs é  Courtney Love. Johanes desejava ser escritora, mas não conseguiu.

     Alguns  amigos chamavam Jack de “marinheiro interessante”.  Os  pais da turma diziam que os filhos  eram inocentes... apenas se transformaram porque  foram vítimas de amizades decadentes, na cidade má. A cidade aqui  é  Nova Iorque.

     Kerouac tinha a   “febre da observação” e levou ao pé da letra a frase de Henry David Thoreau: “quanto mais ar e luz solar  em nossos pensamentos, tanto melhor.” Thoreau vivia  numa cabana  do lado do lago  Walden. A paixão maior do escritor era  andar   a pé. A de Kerouac, andar de trem. Kerouac bebia  na fonte do  velho poeta  e queria  seguir os andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos,  especuladores de terras, jornalistas mentirosos,  militares esculhambados,  religiosos beatos,  vendedores de elixir,  caçadores de peles...   todos esses estradeiros  que iam atrás das primeiras estradas continentais  -  a Nova Califórnia. A única atrapa

lhação era o México  que reivindicava  a propriedade de seus territórios.  Pobre México! E dá-lhe ratos mochileiros. Grande época dos guardas-freios que tanto Kerouac cita em seu On The Roud. Nesse livro  Jack pula o tempo todo de trem em trem e como passa fome  e frio,  meu herói. Tanto crítico fala mal do jeito descontraído de Jack escrever. Até Octavio Paz  diz: “ Os beats não mudaram  a linguagem  nem a poesia, mas continuaram uma tradição. As idéias de Kerouac sobre a escrita espontânea nada mais são   que uma variante da escrita automática dos surrealistas.” (in livro:  Solo a Dos  Voces, de Octavio Paz e Julian Rios. Editorial Lumen, Barcelona, 1973).  Meu querido Octavio Paz não gostava  de Jack. Paciência.

 

Escrito por Rosa Kapila às 19h30
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23/08/2008


 NA  JANELA DO  MUNDO

“Inevitavelmente, vivemos em grande parte

dentro da nossa cabeça.”

(Buda )

 

 

 

A novidade é  a coisa mais  antiga do mundo

E o  fim é a maior invenção do Criador.

Dou-lhe o tambor do coração do tempo que

Ficou  cansado.

E sopra cada  vez mais  forte o passar dos dias.

Sob   o céu branco da meia-noite  procura escorpião

Haverá um dia de  amanhã  para que saias  voando...

Cuidado  para que a poeira dos  caibros do telhado

Não   caia  na manteiga.

Preste  atenção  quando a brisa  suave da primavera voltar.

Saindo de um nado forte aguarde os golpes na  terra.

Tome uma taça  daquele  ar.

Comece a contar histórias  sobre como  a vida é longa.

Sobre como a vida é curta.

Diga com   paixão  que o tempo  está passando

E  se afaste dançando.

Esqueça as malvadezas  dos outros

E viva sua plena compreensão

Siga apenas o talento poético de cada narrador.

 

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 18h14
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22/08/2008


Bom dia, Rosa!

 

"Quisesses ou não, estavas no fogo" é lindo...

adoro ler seus poemas tão cheios de vida de desprezo pelo que muita gente faz dela.

é profundo e simples...

 

um abraço forte de admiração!

 Shena  Luissa

 

Escrito por Rosa Kapila às 13h43
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