diário de ROSA KAPILA


05/07/2009


JOANA  DARC  TAMBÉM  OUVIA VOZES

“Até  os peixes não têm  mais sossego na

casinha  deles” (Rosa Kapila )

Para minha  amiga Katia  Castro  pelo seu aniversário

Pra você, uma torta de maçã  e um soneto, irmã!

 

 

Eu tinha medo daquele  jardim

Um pé  de flor num sapato de courão  antiguinho rachado.

Gastura   me dava, cada dia  mais tensa  e aflições  novas

/chegando.

Olhava a senhora adubando  a sua horta.

Eu tremo

Tu tremes

Ela treme.

Como testemunhas  eu  e as abelhas ébrias

/sussurrantes.

Aquele  pé de  flor  no sapato  encharcado de adubo

Me  lembrava  Edgar Allan Poe  com seus contos

/de emparedamento.

Um dia a senhora  me disse: “eu ouço vozes e minhas

/ervas eu colho dos sapatos.”

Eu sorri  e disse ok vizinha  depois eu pego  uns pés

/de orégano.

“Tem pé de melhoral,  também.”

Desci a ladeira  bolada: Joana Darc  também ouvia vozes.

Normalmente eu fico à janela  até  a hora em que

/a velha senhora delira.

 

Escrito por Rosa Kapila às 00h59
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30/06/2009


FOME OCULTA

“Boca de mel,coração de fel”

( Provérbio Português )

 

 

Quebrei  um ovo no  meio do  redemoinho

/de meu pirão.

Queria  sustância  para  enfrentar

/o diabo que está sempre procurando

/alguém para devorar.

Escrito por Rosa Kapila às 20h30
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25/06/2009


O TEMPO, ESSE FORNO DE ASSAR ROSTO!

“As pessoas podem preencher o vazio com o que

quiserem  imaginar”

( Steve Jobs )

 

Meus melhores dias já raiaram.

Aquele papo  não me convence mais  e nem

/as horas em círculos  a girar.

Vagueio de corredor  em corredor nesse meu prédio

/e da cobertura  vejo os pobres  miserando lá embaixo.

A massa a passar em paletós e capotes de inverno

/anunciam suas lutas.

Eu, testemunha  como um anjo à  espreita

Divago

Oscilo

Meneio.

Desço do prédio infrene no asfalto.

E, escutando um burburinho vou até  a Riachuelo

Fazer um hemograma.

Escrito por Rosa Kapila às 18h02
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22/06/2009


BOILEAU-DESPRÉAUX: UM POETA IRRITADO

“Noites para dormir e dias para o ócio”

(Nicolas Boileau-Despréaux – 1636 -1711 )

 

 

Às vezes caminha-se pelo  inferno com Dante.

O poema nos informa como chegou em tal buraco!

E como a gente se ferra.

Meu relógio me espera  e minha lâmpada  me ouve

/enquanto leio  Henri Barbusse.

Ainda hoje, de manhã, trupiquei nos gatos de Baudelaire

/miando pro sol.

Uma moça magra, com um bolsão e um cintão

/pisa numa barata em fuga.

Enquanto o sol desperta  a rosa, figuras me assustam

/nos jornais.

A lua já  se escondeu  do sol há muito tempo

/mas eu torço para que a noite volte logo, para que

/eu me conserve  em paz  sob o teto  que me ilumina

/e saia dessa rua em tumulto.

Um clarão me avisa que vem chuva.

Meu amigo da banca me fala  dos jornais: “só violência

/e sexo.”

E aquele caso: (...) “assim seja a tragédia, assim marche

/e se explique.”

P.S. o verso entre aspas é o final do poema “Da tragédia”

De Boileau  Despréaux.

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 23h33
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20/06/2009


MEUS OLHOS DORMEM SOB DUAS JANELAS DE VIDRO

E UMA GRADE DE PLÁSTICO

“O olho  é a luz em repouso”

( Jim  Morrison )

 

 

Desenhei  um cacho de nuvens

A fim  de transformar a paisagem

Num mundo mais  suportável.

Meus olhos, vestidos de óculos acham tudo  obnublado!

Vertigo!

Vejo “Um corpo que cai”  no corujão e a olho nu

/não consigo decifrar  os mistérios  de  Hitchcock.

O melhor sono  é o  da TV.

Os mistérios passam correndo, no escuro.

Meus olhos, entre duas janelinhas  de vidro e

/uma grade de plástico, dormem.

 

 

 

 

Escrito por Rosa Kapila às 01h09
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16/06/2009


TEXTO  TEMPORÁRIO PARA OBRIGAÇÕES OCULTAS

“Em meu ofício ou arte taciturna/ Exercido  na noite silenciosa/

Quando somente a lua se enfurece/ E os amantes jazem no leito (...)

( Dylan  Thomas )

 

 

Os fantasmas  sentam nas cadeiras, apenas  para  me olhar...

E me respondem porque eu colo  tanto em  Deus.

Esta é  para você, bebé, que anda com Jesus  em volta do pescoço,

/mas  só gosta de pedra porque pedra não se mexe.

Toda vez que penso em você

Eu fico cega

Como  se  estivesse na Caverna de Platão.

Estar  com  você  é  o nosso passado  me empolgando

Por numerosas  ilusões.

 

Escrito por Rosa Kapila às 19h46
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14/06/2009


COMO UMA ESTRELA FORA DO CÉU

“alguma coisa em mim,deseja alguma coisa

que não sei” (Hilda  Hilst)

 

 

Desço  do trem uma parada  além do destino

Como se procurasse alguém na  ponta dos pés

/observo o campo estranho onde estou.

Como num sonho de  Agatha Christie, vejo

/no sovaco de um homem “O doente imaginário”

/de Molière.

Se eu não fosse doida,eu seria doida, agora.

Me sinto solitária  como um morcego voando

/pelas grutas  de uma caverna.

Estou  naquele lugar como uma estrela fora do céu.

Preciso dar uma forma  para meu corpo

/e pegar um trem de volta.

Escrito por Rosa Kapila às 15h41
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13/06/2009


CAMÕES, UMA ESTRELA INFELIZ

“Triste cidade! Eu temo que me avives

uma paixão defunta!” (Cesário Verde )

 

 

Eu não sou cheiro que se flor

E aqui está Camões  me trazendo cheiros

De uma paixão defunta, no seu Lusíadas

/de”FERO AMOR” sobre Inês de Castro.

Eu, uma contemporânea  que pertenço ao cotidiano

/de muita  gente...frequentando  a mesma praia, indo

/ao supermercado ou ao cinema... tenho  a mesma sensação

de Cesário Verde em carta ao amigo Antonio de Macedo Papança

“Uma poesia minha, publicada numa folha bem impressa,

/comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso,

/um desdém, uma observação! Ninguém escreveu, ninguém

/falou,  nem um noticiário, nem uma conversa comigo, ninguém

/disse bem, ninguém disse mal! (...) literalmente parece que

Cesário Verde não existe”.

Eu, que tento fazer as pessoas pensarem sobre o mundo e a vida!

Vi  o teu rosto  desenhando num navio.

Ainda carrego em minha boca  o cheiro do teu poema

/redivivo.

Tanto adiei minha poesia  para outro século

Que hoje ela me deixou na mão, a ver navios!

Escrito por Rosa Kapila às 20h31
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11/06/2009


A CALMARIA  DO   RIO 

“Ao contrário da prosa,  a escrita em versos

é uma surpresa  a partir de uma ideia  que vem de

outra parte” ( Gary Snyder )

 

 

Não me peçam pra ir embora... / pois meu   corpo

/ é  um rascunho que está sendo melhorado

por isso  tento  encontrar  respostas incomuns

de  associações longínquas.

Dizem que o branco é também cor de gótico.

Enquanto passeio nas alturas tento não vomitar

No  negro

No branco

No colorido  arco-íris

Nascido numa lagoa  mas que  poderia

/ter vindo de céus de Itália

do Rio Pó

Rio   famoso de nascedouro de Línguas  Portuguesas

De  faíscas de Vesúvio e de lascas de  Etna.

Até segunda  ordem  não mexam em meus papéis

De branco

De preto

De rosa.

 

Escrito por Rosa Kapila às 18h54
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07/06/2009


SOMOS  PÓS  HUMANOS?

“Eu não faço nada. Minha obra mais bela

é o emprego de meu tempo.”

( Marcel Duchamp )

 

Ouço o canto do mar

/com medo que ele me beije e eu  suma.

Hoje, à  meia-noite eu marquei  com  aquela  voz

/uma voz  que haveria de nascer  no dia  em que eu findasse

/algumas letras  e arrancasse  aquele papel da parede.

Meus  grandes e pequenos ossos se entroncham

/quando eu começo  a cortar alface pro almoço.

Meu abajur  de gato  já não mais  admira a face contra a sombra.

Comprei  uma chave de grifo

/e fiz associações  com os grifados verbos defectivos

/que já não se estudam mais.

Aquele bigode do professor  Olímpio difundia

/respeito  do Português

                      de banco

                      de areia

                      de madeira

                      de ferro

Eu deixava o sol ir embora  e baldeava na bacia.

Lembro disso  quando ouço o canto do mar.

 

Escrito por Rosa Kapila às 14h22
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24/04/2009


LIMA  À  MEIA-NOITE

“Os livros têm o valor  de consolação

para seus autores”

( Inês  Pedrosa )

 

 

Agripina Pomar e nossa viagem ao Peru...

Caminhávamos pelas feiras improvisadas

E sentávamos à beira de rios... ficávamos horas

Vendo peixinhos mortos.

- Que foi? Uma vez perguntei.

- Uma recordação dos infernos!

Os pensamentos toscos chegam... guardo ainda

Minha bolsa amarela de poeira... atopetada  de santinhos.

Nos apaixonamos por nosso guia de viagem...tiramos

Cara ou coroa com umas latas vazias.

Agripina  ganhou o índio e o levou para países nórdicos

Aos  quinze dias com o novo amor descobriu-o

Lambendo  portões enferrujados e chupando  fósforos.

Pobre índio com aquela locomotiva a desabençoar-lhe.

Deporta o jovem  para sua visão do paraíso.

Hoje  Agripina  tem  uma linda  menina Pilar, filha de

/inglês...”mas com  a cara  redonda de sol do peruano”.

Agripina  lua nova cheia  de todos os anoiteceres  do mundo...

Amarela flor de Portugal... com os cigarros amarrados à sua

Literatura de versos ligeiros como a velocidade da sombra

Correndo  para preparar frases diabólicas.

Amiga,  estou na carreira  falando lendo devorando almas

Ocupada como o quê!

Mas nada de  melancolia  nem arrependimentos

Mesmo  pelo  estranho passado!

Seremos sempre fortes como a forja da faca:

- fogo

- água  e

- pancada

Também  somos  um caco entre vários cacos de barro...

Tudo  é uma questão de  “sangre”

Buscai  ao Senhor enquanto se pode  achar.

 

 

 

 

                   

Escrito por Rosa Kapila às 15h11
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22/04/2009


UMA PERNA PERDIDA  DENTRO DO GESSO

“Eu não faço nada. Minha obra mais bela é o

emprego de meu tempo.”

( Marcel Duchamp)

 

 

Nunca me enganei  a respeito  de sofrimentos

E, naveguei em desastres  corriqueiros

/de gente chegando

/de gente saindo

Foi aqui que quebraram a fechadura

E com a casa  arrebentada... fui morar com minha avó

Preguei um soneto na porta

“QUE  SOCIEDADE  DE PORRADA É  ESSA?”

“QUE  NAU  DE INSENSATO PASSOU AQUI?”

Arrasada   não sei  o que fazer lá fora...

Perigos aumentam  a cada volta na fechadura

Penso que os anjos  sempre   me guardaram.

Flor com arnica  para passar  a  dor

Repousando  na delícia de uma sílaba encolhida.

Chama o bombeiro! Alguém diz.

Não precisa.

A luz do dia  me consola

“No silêncio entre  dois pensamentos.”

Escrito por Rosa Kapila às 22h43
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15/04/2009


A PRECARIEDADE DA SORTE  HUMANA

“estranho livro aquele que escreveste,  artista

da saudade e do sofrer! Estranho livro  aquele

em  que puseste  tudo o que eu sinto, sem

poder dizer”  (Florbela Espanca)

 

 

Toda  a carne que tenho distribuída  testa

/abaixo, dói.

E, ainda dizem  que  forte sou.

Eu ando, eu corro, eu penso em aparar aquela luva

/perdida por um astronauta, no interplanetário.

Eu  invento “a lógica dos possíveis narrativos”  em  lixo

/espacial.

O que me salva são os poetas  de antigamente,

/que me fazem companhia.

Avalio  encantadores frutos  e mistérios de pessoas

/escondendo  seus sabores.

Penso nos grãos  de areia   que juntei  numa latinha

/de marrom glacê  para recompensas  dar-me

/em formas irreais.

Imagino treinar  feituras  de sonetos, saltos ornamentais

/em cachoeiras, fluxos de energia no  Himalaia.

Penso muito na precariedade da sorte humana.

Lembro-me de um cajueiro velho de Pindamonhagaba.

Gosto de relembrar-me da casa  do tio Bob de Pinda

/e nos moranguinhos  que colhíamos  pela estrada.

 

Escrito por Rosa Kapila às 21h25
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11/04/2009


ENQUANTO PASSEIAM OS RATOS

“Já fico feliz de poder  lidar com  Lampião,

satanás e muitos outros,  tudo no tempo que

/eu invento, às vezes com lógica, outras nem tanto”

(Alceu  Valente )

 

Para minha amiga Agripina Pomar

 

 

Meus vizinhos  são estranhos

/de religião nem se fala, tampouco de sinais de fogo.

Alguns  deles  terão  o  meu sotaque?

Seguro o meu caderno de espiral para jogar  fora

/consoantes e vogais  enquanto mastigo sementes

/de girassol  pra cima e pra baixo  no elevador.

Aqui, nesse elevador, estão alguns mistérios

/de meu  medo.

Falei para um vizinho que o maior incêndio  da

China foi causado por ratos que mastigaram  os

/fios elétricos do prédio.

A goela do homem se inflou  e com medo ele  disse:

“lugares importantes se queimam...imagina!”

Fugi do elevador pela neblina

Cometerei  versos assassinos  e os despacharei  com os

/cumprimentos  dessa autora  que agora  sai

/para caçar os ratos...

Ratos  em geral  não falam mas deixam pistas.

Em minha sala de estudos couros comidos e flores esbeltas

/dormindo  sobre o  papaya verde  que virou um túnel

/ e  o capuz de meu  capote  escondia a aritmética

/de meu medo.

Escrito por Rosa Kapila às 20h34
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O QUE HÁ DE QUENTE  NO GELO?

“Para alcançar o conhecimento,  adicione

coisas  todos os dias. Para alcançar  a  sabedoria,

remova  coisas todos os dias.”

( Lao-Tsé )

 

 

Às  vezes eu gosto de pensar que os  espíritos

/celestes  vagam  pelo  firmamento

/acendendo  as estrelas  uma por uma...

É duro constatar que as estrelas  estiveram ali

/o dia todo.

Minha vizinha, rosnando em frente  ao elevador

/diz que é uma  estrela!

Enquanto ela age assim  eu dou uma viajada

/pelo céu   preenchendo  minhas lacunas.

O que é melancolia?

É a palavra  mais  abstrata que conheço...

Já me sinto  pronta  para devolver

/todas as sombras.

Deus! Dê-me uma virtude positiva  para

/nela eu pensar...

Aguardo  o vento que daqui  a pouco

/vai passar por aqui...

Um morto  conhecido se aproxima...

E se ele  vir   puxar  o meu 

/eu destruo o resto da alma dele.

 

Escrito por Rosa Kapila às 00h04
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